Sunday, 22 September 2013

Ray Charles in São Paulo in 1963





Show de Ray Charles na TV Excelsior em 19 de Setembro de 1963

Em meio à expectativa de indicações ao Oscar de 2004, do filme 'Ray' de Taylor Hackford, que conta a vida de Ray Charles e o novo interesse sobre o cantor-pianista devido à sua morte em 10 Junho 2004, com 73 anos, foi lançado nos USA e Europa um DVD com um registro raro da 1a. tournée de Ray ao Brasil em 1963.

'Ô genio Ray Charles Live in Brazil 1963' mostra 2 shows que Ray fez no Teatro Cultura Artística, na rua Nestor Pestana em São Paulo, no dia 19 de setembro de 1963. O registro da apresentação de Charles foi retirado de um video-tape gravado pela TV Excelsior, Canal 9 e exibido uma única vez, exatamente como foi ao ar - incluindo comerciais das Lojas Erontex, patrocinadoras do show.

Briga por audiência e prestígio

A façanha da TV Excelsior de trazer Ray Charles, que em 1963 estava no auge de sua popularidade foi o resultado de uma briga figadal entre o Canal 9 e o Canal 7, TV Record, que tradicionalmente era quem trazia os maiores cartazes internacionais ao país como Louis Armstrong em 1957, Nat King Cole em 1959, Ella Fitzgerald em 1960 etc.

No entanto a TV Record estava perdendo terreno para a TV Excelsior, que arrendara o Teatro de Cultura Artística na rua Nestor Pestana, ao lado da Praça Roosevelt para servir de auditório de seus programas.

Segundo Zuza Homem de Mello, produtor musical, a Excelsior não poupava esforços para superar a Record. "Eles estavam com muito dinheiro", conta Zuza, que conhecera Ray Charles em 1959 nos USA e que não pôde ver os shows do Gênio no auditório da Nestor Pestana por estar trabalhando na Record no mesmo horário.

Em meio a essa disputa, a chegada de Ray Charles, era uma grande estocada no Canal 7, que pouco antes havia protagonizado um dos maiores micos da história da TV brasileira: anunciara com pompa, durante dias, uma grande atração internacional surpresa para a meia-noite do dia 31 de março de 1963 - tecnicamente dia 1o. de Abril - o dia da mentira. Para aqueles que ficaram acordados até tarde a Record mostrou Duke Hazlett, um sósia mixuruca de Frank Sinatra que Paulinho Machado de Carvalho tinha contratado através da General Artist Corporation of New York e do agente Eddie Elkor. A brincadeira de mau-gosto da Record frustrou o seu público não ajudando em nada a credibilidade da emissora do Aeroporto.

A vinda de Ray Charles pela Excelsior foi tratada como um acontecimento épico pela emissora e gravadora Polydor, que distribuía os discos da ABC-Paramount no Brasil, lançava o álbum 'Ray Charles entre nós' - ecoando referências divinas. Programados inicialmente para junho de 1963, os shows só aconteceram em setembro. Os anúncios de página inteira publicados pelo jornal O Estado de S.Paulo davam o tom da expectativa, com um exclamativo 'Ele veio mesmo' como cabeçalho.

A Record e sua filiada TV Rio, Canal 13 da Guanabara, aproveitando a publicidade em torno da vinda de Ray Charles, deram um golpe rude. Conseguiram, através da Embaixada norte-americana no Rio um video-tape de uma apresentação de Ray Charles no Newport Jazz Festival de 1959. O golpe baixo da Record rendeu um protesto por parte da Excelsior que mandou publicar um anúncio do tipo 'comunicado ao público' da Ray Charles Corporation nos jornais do dia 14 de Setembro, assinado pelo agente Henry Goldgrand, dizendo que o tal video fora exibido sem autorização do artista e que ação criminal contra os responsáveis seria movida pela empresa.


22 September 1963 - Ray Charles at the arena of Clube Atletico Paulistano on Sunday 4:00 PM.

Golpe baixo da TV Record faz com que a Ray Charles Corporations publique anúncio repudiando a emissora do Aeroporto. 


Denúncia anônima

O outro contratempo, que segundo relatou o Estado no dia da estréia em São Paulo quase ameaçou a temporada de Ray Charles no Brasil, foi originado por uma denúncia anônima (provavelmente partindo da clique da Record). A Polícia Marítima, então responsável pelo controle de estrangeiros, recebeu uma denúncia de que Charles estava no País com visto de turista, o que o impediria de cumprir qualquer contrato de trabalho em território nacional. Para resolver o impasse Charles deveria voltar aos Estados Unidos, se apresentar a um dos consulados brasileiros e ainda apresentar 'atestado médico para provar sua capacidade física para o trabalho'. O problema virou caso diplomático e foi resolvido após intervenção da embaixada norte-americana junto ao Itamaraty. 

Se havia alguma dúvida de sua capacidade física para o trabalho ela foi tirada com os 10 shows que Ray Charles fez durante os sete dias que ficou no Brasil. A temporada começou no Rio, com shows no Teatro Municipal e no Maracanãzinho. A passagem por São Paulo começou com os dois shows feitos na mesma noite de quinta-feira no Cultura Artística e terminou com apresentações no ginásio do Clube Paulistano, no fim de semana.

A estréia de Charles, que trouxe uma troupé de mais de 40 pessoas, entre músicos e as Raylettes, um quarteto feminino de vozes, agitou o centro de São Paulo. Uma multidão ficou de prontidão durante o dia em frente ao Hotel Jaraguá, para conseguir autógrafos do ídolo. Mas Charles só deixou o hotel momentos antes do show. Ao chegar ao Teatro de Cultura Artística, outra multidão o esperava e, após 15 minutos de autógrafos. 'somente logrou ingressar no teatro contando para tanto com a ajuda de elementos da Guarda Civil e da Força Pública', noticiou o Estado.

A performance daquele noite foi exaltada no dia seguinte no artigo 'O cantor e seus êxitos: ... foi com sua grande voz que Ray Charles cantou e conquistou a platéia, apresentando um repertório que tinha muito de novo e as canções pelo público gratamente relembradas, principalmente 'Stella by starlight' e 'I can't stop loving you'. 

Ray Charles ainda voltaria a São Paulo outras 5 vezes. Mas já em sua primeira volta, em 1970, a cidade e seu centro, onde se hospedara e se apresentara, já não eram os mesmos. A derrubada da democracia brasileira num golpe militar iniciado perto da meia-noite de 31 de março de 1964, exatamente no aniversário do 'trote' da Record, instaurou uma Ditadura Militar sanguinária que levaria o País à derrocada e a um longo período de brutalidade e decadência que ainda não foi revertido. Assim, além da lembrança de um grande artista, o DVD 'Ô-genio Ray Charles Live in Brazil 1963' traz como bonus a nostalgia de uma cidade que não existe mais.

Artigo original de Edmundo Leite para o jornal 'O Estado de S.Paulo' de 21 de janeiro de 2005. Modificado pelo blogger.